Como funcionam os programas de inovação no cooperativismo

Cada vez mais o cooperativismo tem buscado formas de se reinventar para aumentar sua competitividade. Indício disso é a disseminação de programas de inovação no cooperativismo. Ou seja, cooperativas que têm montado estruturas e processos internos para incorporar a inovação ao seu DNA.

É sobre o que são e como são criados programas de inovação no cooperativismo, além dos objetivos aos quais se propõem, que vamos falar neste post.

Mas antes de nos aprofundarmos nos programas, vamos procurar entender um pouco melhor as definições acerca de inovação.

O que é inovação

Falar sobre o que é inovação pode parecer um tanto quanto trivial, mas não se engane. Há diferentes conceitos e definições sobre o que faz um processo ou decisão ser inovador. E é preciso colocar todos os envolvidos na mesma página antes de criar um programa de inovação no cooperativismo.

O especialista em inovação, professor de empreendedorismo do Insper e coordenador do programa de inovação da Fapesp, Marcelo Nakagawa, fez este alerta durante sua palestra no Cooptech 2019.

Na ocasião, ele pontuou quatro definições possíveis sobre inovação a depender do ponto de vista. Veja:

  1. Inovação em conversa de boteco: qualquer novidade
  2. Na estratégia da empresa: a empresa precisa ter uma definição clara e é a alta direção que vai avaliar
  3. Na captação de recursos: a definição específica varia de acordo com o financiador
  4. Jurídica: caracterização da Lei do Bem nos projetos da empresa

Na prática, pense na disponibilização de uma máquina de café expresso para os colaboradores, por exemplo. Numa conversa informal com seu vizinho, por exemplo, isso pode ser considerado inovador por ele. Mas certamente não é para um investidor, por exemplo.

Inovação como algo a ser comercializado

O professor Mario Sergio Salerno, da USP (Universidade de São Paulo), faz uma diferenciação entre descoberta, invenção e inovação. Para ele, inovação é aquilo que gera um novo conhecimento, gera protótipo e é comercializado.

No vídeo abaixo ele afirma que inovação vai além da alta tecnologia e pode ocorrer sem que haja um departamento de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Além disso, ele salienta que inovação não é fruto do acaso, mas de muito trabalho. Ou seja, que depende de processo, gestão e organização.

Não é necessário entrar no mérito sobre qual definição é a mais correta. Afinal, até mesmo dicionários online têm entendido inovação como um sinônimo de adaptação no contexto empresarial. O importante é assegurar que todos os atores envolvidos estejam considerando a mesma definição.

Como vimos, inovação é fruto de trabalho sistemático. Isso começa a explicar a importância dos programas de inovação no cooperativismo.

O papel dos programas de inovação no cooperativismo

Além de ser fruto de processos de trabalho bem estruturados, a inovação é contínua e não pode ser fruto de iniciativas isoladas. Isso é o que tornam importantes os programas de inovação no cooperativismo.

Eles são importantes porque é preciso criar e cultivar uma cultura de inovação. Não é fácil mudar o mindset de toda uma cooperativa para que a inovação passe a ser entendida como filosofia e posicionamento. Assim, um programa de inovação no cooperativismo funciona, em muitos dos casos, como elemento extraordinário.

Ou seja, um ambiente com condições ideais para aplicação das boas práticas em inovação e que não interfere com a operação cotidiana. Um programa coloca a inovação em destaque e gera curiosidade por parte da empresa como um todo.

Esse foi o caso do Mais 360º, programa de inovação no cooperativismo do Conglomerado Bancoob. Conforme explicou Rodrigo Guimarães, Gerente de Gestão da Inovação do Conglomerado Bancoob, durante o Cooptech 2019.

Cooptech 2019
Rodrigo Guimarães, Gerente de Gestão da Inovação do Conglomerado Bancoob, apresenta o programa de inovação no cooperativismo Mais 360º durante o Cooptech 2019

O gatilho para o lançamento do programa de inovação foi a criação do Lab 360º, um espaço físico para inovação, disse. O hype causado pela inauguração do espaço motivou os colaboradores a enviarem 155 propostas na primeira edição do Mais 360º.

De forma parecida, o programa de inovação no cooperativismo da Unimed BH, o Link One, gerou impacto em toda a cooperativa. É o que contou Rafael Moraes, Coordenador de Inovação da Unimed BH, no Cooptech 2019. A declaração de lançamento do programa fala em “gerar impacto positivo e sustentabilidade, valorizando tentativas, erros e aprendizados que fazem parte do processo”.

Cooptech 2019
Rafael Moraes, Coordenador de Inovação da Unimed BH, fala sobre os desafios da criação do programa de inovação no cooperativismo durante o Cooptech 2019

De acordo com ele, “para uma empresa de saúde, colocar a palavra “erros” na declaração de inovação foi complicado”. Entretanto, a diretoria aceitou porque entendeu que a proposta é errar em um ambiente controlado de experimentação e não em atividades que impactem o core business.

Como iniciar um programa de inovação

Para começar a entender como funciona, de fato, um programa de inovação no cooperativismo, vamos voltar novamente à palestra de Marcelo Nakagawa no Cooptech 2019. Ele frisou que muitos eventos sobre inovação trazem possibilidades muito distantes da média das empresas. Ou seja, inovações altamente disruptivas e inviáveis para cooperativas e empresas já estabelecidas.

Assim, ele defende o que chama de “inovação arroz com feijão” para denominar o tipo de inovação que as empresas são capazes de absorver. E ninguém melhor para saber quais são essas inovações do que as próprias cooperativas. E tal descoberta se dá também por meio de programas de inovação no cooperativismo.

Para incorporar a inovação à estrutura da cooperativa, ele recomenda:

  1. Estudar
  2. Falar com outros heads de inovação para entender quais são, de fato, os perrengues pelos quais passaram
  3. Conhecer os espaços de inovação, como coworkings e aceleradoras
  4. Identificar os facilitadores. Ou seja, quem da diretoria vai comprar a briga pela inovação
  5. Fazer imersão com a diretoria: leve os diretores para conhecer os espaços de inovação pesquisados
  6. Definir a estratégia
  7. Fazer o lançamento da iniciativa
  8. Mostrar os resultados, por menores que sejam, e mantenha o ROI (Retorno sobre o investimento) sempre em foco
programas de inovação no cooperativismo

Estrutura de um programa de inovação no cooperativismo

O primeiro passo ao estruturar um programa de inovação no cooperativismo é conhecer as principais etapas do funil da inovação. E podemos reduzí-las a cinco:

  1. Alinhar a inovação à estratégia da cooperativa: é o momento em que a cooperativa vai analisar sua estratégia para, assim, identificar suas dores. Ou seja, os pontos onde é mais necessário desenvolver novas ideias
  2. Ideação: é quando começa o envolvimento dos colaboradores da cooperativa com o programa de inovação no cooperativismo. Isso significa que eles são convidados e incentivados a enviar ideias para solucionar os problemas identificados na etapa anterior
  3. Conceituação: se as etapas anteriores tiverem sido bem feitas, é esperado receber um grande volume de ideias. Naturalmente, nem todas serão boas e haverá algumas repetições ou sobreposições. Esta etapa cuida de avaliar e melhorar as principais ideia para torná-las viáveis à implantação
  4. Go/No Go: ou seja, a decisão sobre ir ou não ir em frente com as ideias acontece nesta fase
  5. Implantação: uma vez aprovado o conceito, ocorre o seu lançamento no mercado e é quando a ideia ganha forma

Atenção às pessoas e às decisões

Como pudemos ver já na fase 2 se torna imprescindível envolver as pessoas no programa de inovação. Isso é importante porque se trata de um processo de mudança de cultura. Mas também é crucial para que o programa de inovação no cooperativismo seja o mais diverso possível.

Afinal, o que se espera é o levantamento e desenvolvimento de ideias inovadoras. Ou seja, diferentes. Logo, não é possível criar ideias novas apenas com as mesmas pessoas envolvidas no processo decisório. Um bom programa de inovação no cooperativismo conta com visões e habilidades distintas.

Pelo mesmo motivo é importante assegurar que os colaboradores estejam devidamente capacitados. O que se espera deles, afinal, é que dominem seus processos de trabalho. Mas é imprescindível que tenham conhecimento sobre tendências tecnológicas e sobre o próprio modelo de negócios da empresa.

Uma vez que as pessoas estão envolvidas e são capacitadas, é preciso dar um dos passos mais importantes para o início da mudança de cultura: descentralizar as decisões. É preciso lembrar que, por mais que sejam disruptivos atualmente, os conceitos de inovação e transformação digital são diferenciais temporários. O que se almeja de fato é criar uma cultura ágil de inovação. E esta sem dúvida depende de um processo descentralizado de decisão.

Conclusão

A criação de um programa de inovação no cooperativismo é um passo importante para iniciar a transformação digital dentro das cooperativas. Vimos que há modelos a partir dos quais é possível dar início à formatação de uma iniciativa semelhante dentro da sua cooperativa.

Além disso, há iniciativas setoriais criadas para dar suporte a projetos de inovação em cooperativas. Uma delas é o Programa de Inovação para o Cooperativismo Paranaense, do Sistema Ocepar.

De acordo com o presidente do sistema Ocepar, José Roberto Ricken, o objetivo deste programa é incentivar a modernização das cooperativas. Por meio da iniciativa agentes escolhidos pelas cooperativas são treinados para disseminar os conceitos de inovação internamente.

A ideia é que, uma vez disseminados os conceitos, as cooperativas criem seus próprios programas de inovação. Atualmente, mais de 70 cooperativas e 500 pessoas já passaram pelo programa.