Entrevista: Programa de Inovação da Ocepar capacita mais de 70 cooperativas

O Sistema Ocepar é formado por três sociedades distintas, sem fins lucrativos que, em estreita parceria, se dedicam à representação, fomento, desenvolvimento, capacitação e promoção social das cooperativas paranaenses. 

São elas: o Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop PR) e a Federação e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Fecoopar). 

A Ocepar foi criada em 1971, integra a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e tem como missão ajudar no desenvolvimento das cooperativas e de seus integrantes. Uma de suas iniciativas mais importantes foi a criação e fomento do Programa de Inovação para o Cooperativismo Paranaense. 

O projeto foi construído especialmente para os gestores e lideranças de cooperativas, com o propósito de melhorar a gestão das cooperativas e, principalmente, disseminar a cultura da inovação no cooperativismo paranaense. Cerca de 70 cooperativas já foram capacitadas.

Para falar sobre esses e outros assuntos, o Coonecta conversou com exclusividade com José Roberto Ricken, atual presidente do Sistema Ocepar. Confira a seguir.

José Roberto Ricken, Presidente do Sistema Ocepar

Coonecta – No primeiro semestre de 2019, o faturamento das 220 cooperativas registradas no Sistema Ocepar apresentou crescimento real de 8,1%. A que o senhor atribui esse resultado?

José Roberto Ricken – Tivemos um primeiro semestre esse ano melhor que o do ano passado, com o faturamento das cooperativas na casa dos R$ 41 bilhões. A área de proteína animal teve grande contribuição porque o período foi muito favorável em função dos problemas verificados na China, e isso aumentou a demanda principalmente de carne de aves. Como nossas cooperativas são responsáveis praticamente pela metade do que se produz de aves no Paraná, tivemos um aumento relevante. Como estávamos estruturados nessa área e também no mercado internacional, foi possível ter um reposicionamento do setor que até dois anos era negativo e hoje é bem positivo.

O senhor acredita que este segundo semestre vai manter o ritmo de crescimento?

Ricken –  A tendência é, sim, de se confirmar essa demanda maior. Obviamente, se não tiver nenhum contratempo no mercado, devemos fechar o ano com o resultado bem positivo. Somos sempre otimistas em relação ao nosso setor e atuação.

Nos últimos anos, o Brasil tem passado por grandes dificuldades na economia, mas as cooperativas vão na contramão dessa realidade. Como o cooperativismo segue crescendo mesmo num cenário adverso?

Ricken – É interessante essa colocação. O primeiro fato positivo é o modelo de gestão que foi implantado aqui no Paraná, mas também em outros Estados brasileiros. É um modelo em que o resultado retorna para a origem. Isso é diferente de outros sistemas que obrigatoriamente têm que remunerar os investidores que, às vezes, não têm a ver com atividade. Já os nossos investidores são os próprios produtores. E esse retorno tem sido interessantes. 

Qual a média desse retorno?

Ricken – O Paraná, em média, tem retornado anualmente, nos últimos cinco anos, R$ 2 bilhões e o produtor conta com essa distribuição. Ele não está mais disposto a produzir apenas commodity e ter uma remuneração básica. Ele quer retorno sobre o resultado e as cooperativas proporcionam isso. É muito mais importante gerar desenvolvimento regional que propriamente o faturamento. Nos últimos anos, temos investido esse retorno em agroindústrias e estruturas de armazenamentos que vão beneficiar os produtores, pois poderemos atender demandas internacionais de maneira organizada em volume e isso dá uma remuneração positiva.

Atualmente, no ramo agro, as cooperativas que mais se destacam no cenário nacional são do Paraná. Por quê? 

Ricken – Isso decorre de modernização e, principalmente, investimentos em pessoas. Além disso, é agregar valor aos produtos também. Tem muitas cooperativas fora do Paraná nas quais os processos são iguais aos nossos, isso acontece em Goiás, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e em outros Estados. Essa profissionalização veio para ficar. Nossa missão é organizar economicamente as pessoas para que elas tenham mais renda e com isso consigam conquistar uma condição melhor de vida sem depender de absolutamente ninguém. Aqui o que foi feito diferente foi o planejamento, e a Ocepar tem essa liderança para fazer isso. O segundo passo foi a profissionalização, que passa pela gestão e pela capitalização, ou seja, a recuperação de fundos. O produtor é sócio da cooperativa e ele exerce isso. 

Qual o papel da Ocepar no crescimento das cooperativas paranaenses? E como a Ocepar atua para melhorar a gestão das cooperativas?

Ricken – Nós temos aqui desde 1996 um sistema de segregação de funções, com uma liderança bem clara dos cooperados. Temos também uma equipe de profissionais em cada cooperativa. Tudo isso dá confiabilidade e o produtor percebe que existe transparência, e o que não for assim não sobrevive. Temos hoje mais de 40 índices mensais de cada uma das cooperativas aqui do Paraná que a gente compara e elas fazem questão de se comprarem umas com as outras, para ver onde está indo bem e onde podem melhorar. 

Imagino que, para esse trabalho de gestão, o Programa de Inovação para o Cooperativismo Paranaense tenha papel de destaque, certo?

Ricken –  Sim. O Programa de Inovação tem como objetivo incentivar a cooperativa à modernização em todos os aspectos. Nosso foco é corrigir o que precisa de forma prática. A cooperativa dentro do programa de inovação indica os agentes que vão trabalhar internamente e nós os treinamos. O que a faz Ocepar é dar condições para que essas pessoas fiquem antenadas com a realidade do mercado e com os movimentos de inovação. 

Como esse programa está estruturado hoje e como funciona, na prática? Poderia exemplificar?

Ricken –  O programa está funcionando há dois anos. Temos 70 cooperativas participantes e a ideia é atingir todas as cooperativas, organizando-as por ramo. Até agora 500 pessoas já participaram dos treinamentos, num total de 190 horas divididas em diversos módulos. Nossa parte é formar e despertar o interesse, depois internamente cada cooperativa vai montar o seu programa de inovação e gestão e nós apoiamos isso com recursos e pessoas para dar sequência no que precisa ser feito em cada uma delas.

Como são avaliados os principais resultados desse programa? 

Ricken – O maior resultado é a profissionalização em todos os níveis. Nós queremos que todas as cooperativas tenham um programa completo com todas as fases para dar segurança interna, tranquilidade para os parceiros. Nosso primeiro objetivo foi a inovação para modernizar os sistemas, e depois compliance para dar segurança e transparência absoluta daquilo que é feito. 

Quais cooperativas participam do programa?

Ricken – Hoje, temos 70 cooperativas que participam do programa. Entre elas podemos destacar: Frísia, de Carambeí (antiga cooperativa Batavo); Unimed de Londrina; Unimed de Curitiba; Sicoob Central Unicoob, de Maringá; e Uniprime Pioneira do Paraná, de Toledo.

Como o senhor avalia os movimentos de inovação no cooperativismo no Paraná e no Brasil como um todo?

Ricken – Eu estou como diretor da OCB para a região Sul, e esse é um assunto fundamental na discussão geral que nós temos. Talvez, tenhamos dado alguns passos mais rápidos nisso. Eu que estou há bastante tempo no sistema, nunca vi um avanço tão significativo e com as perspectivas tão positivas do cooperativismo quanto agora. As pessoas começaram a entender que não dá para viver dependendo do governo. Em uma pesquisa interna que realizamos, vimos que 87% do público jovem não está buscando emprego público. Eles querem ser empresários e investidores. E isso é muito favorável para nós, pois sozinho ninguém tem chance de crescer. Agora, se as pessoas tiverem a garantia que terão um retorno do resultado é muito melhor.

Por falar em jovens, a Ocepar esse ano atingiu a geração de mais de 100 mil empregos diretos gerados no setor. 

Ricken – Sim, e hoje já estamos com quase 105 mil empregos. Isso se deve muito às indústrias que estão crescendo. Hoje, em mais de 130 cidades do interior, as maiores empresas são as unidades das cooperativas. Isso muda tudo, pois o retorno que cada unidade vai ter será reinvestido no próprio município, é um dinheiro que não vai para fora.

Qual a expectativa da Ocepar para 2020?

Ricken – Nós temos aqui no Paraná, o G7, que é uma entidade informal das 7 federações. Nós vamos fazer uma reunião, onde será discutido a recuperação da economia. Temos sinais evidentes que teremos uma recuperação e isso deve começar a acontecer em 2020, isso independentemente de governo. A expectativa é de melhorias e de forma estruturada.