Start.Coop: uma aceleradora de cooperativas dos EUA e Canadá

Sediada em Boston, a Start.Coop foi a primeira aceleradora de cooperativas dos Estados Unidos. O objetivo do programa é ajudar empreendedores (startups) do cooperativismo a ganharem escala em seus negócios, expandindo dessa forma o ecossistema cooperativista como um todo.

A primeira turma da aceleradora se graduou em 2019. O programa é organizado em formato de cohort, em que os participantes trabalham juntos no currículo para atingirem o mesmo objetivo comum.

De acordo com Greg Brodsky, um dos cofundadores e diretores da Start.Coop, o programa de aceleração dura de 12 a 16 semanas, dependendo do ano, e inclui diferentes perspectivas de formação e discussão de ideias.

“Eu acredito que, em grande parte, uma cooperativa de sucesso é um negócio de sucesso. Apenas alguns elementos são especiais em uma cooperativa: como captar investimento e como estabelecer um modelo de governança que faça dela uma cooperativa”, explica. 

Como funciona o programa da Start.Coop

Grande parte do programa trata de temas como marketing, recursos humanos, finanças e outras especialidades necessárias para se tocar um negócio. “Mas, em nosso currículo, esses conteúdos aparecem através das lentes do cooperativismo”, afirma Brodsky.

Os participantes têm a oportunidade de conhecer as melhores práticas do mercado e discutir suas necessidades específicas relativas à estruturação de seu modelo de negócio.

Um dos itens fundamentais do currículo é o coaching. Conforme destaca Brodsky, “ser um empreendedor de startup em geral é muito desafiador, mas no caso de uma cooperativa é duplamente difícil, já que o nosso ecossistema é menor e temos de enfrentar uma série de dificuldades”.

“Uma das coisas que fazemos é orientar os empreendedores sobre como lidar com esse ambiente complexo, dando inclusive suporte emocional a eles”, conta. 

O programa também inclui uma comunidade de mentoria, em que os participantes são conectados a profissionais que trabalham em cooperativas há muitos anos ou em negócios próximos ao mundo do cooperativismo, além de especialistas em nichos específicos do mercado.

“Tentamos, em resumo, cercar os empreendedores dos melhores mentores que podemos achar”, descreve Brodsky.

Start.Coop fornece rede de apoio e investimento

A Start.Coop oferece aos membros das cooperativas aceleradas uma rede de provedores de serviços, em que profissionais como contadores e advogados que trabalham no cooperativismo são apresentados a eles.

De acordo com Bordsky, encontrar no mercado esse tipo de profissional pode levar tempo e causar frustrações, então a aceleradora se dispôs a poupar os empreendedores de tais dissabores e estabelecer essa rede.

As cooperativas aceleradas recebem um prêmio de US$ 10 mil da Start.Coop e têm a chance, ao fim do módulo, de expor seu projeto para investidores e outros agentes do ecossistema do cooperativismo.

“Decidimos criar esse prêmio por dois motivos. O primeiro é que startups sempre precisam de dinheiro para se estruturarem, especialmente no caso das cooperativas. Além disso, o valor funciona como um incentivo para que os melhores empreendedores tragam suas ideias, de forma que assim conseguimos atrair cooperativas mais competitivas e aumentar nossa seletividade”, Brodsky explica.

Após participarem do programa, as cooperativas precisam pagar de volta os custos da aceleração e o prêmio investido, o que é feito por meio de um acordo de compartilhamento de receita. Brodsky explica que elas pagam de 2% a 3% de sua receita anual à Start.Coop, dependendo de seu modelo de negócio.

“Com isso, elas ajudam a acelerar novos empreendedores nos anos seguintes. Já temos visto algum dinheiro voltar desde o segundo ano de programa”, conta. 

O modelo de financiamento da Start.Coop continua em evolução. Brodsky afirma que a organização tem tentado desde o início atrair grandes cooperativas norte-americanas para apoiar as startups, mas até agora não foi possível fazê-las se comprometer com o programa.

“Entretanto, ainda acreditamos que haja maneiras de trazê-las para investir em nossos participantes”, diz.

Uma das iniciativas nesse sentido é reunir e disseminar as histórias de cada empreendedor, algo que chama a atenção de muita gente interessada em novos negócios. 

“As pessoas gostam de ouvir as narrativas de vida dos participantes em programas televisivos como o Shark Tank, por exemplo. Por isso, queremos pegar as melhores versões dessas histórias e compartilhar com o máximo de pessoas possível, atraindo mais gente para a esfera do cooperativismo”, conta. “Afinal de contas, são empreendedores que querem dividir a riqueza que produzem desde o projeto.”

Conheça os participantes

A primeira turma de participantes do programa de aceleração da Start.Coop foi constituída por cinco cooperativas que participaram de um programa intenso de 10 semanas de duração. 

As cooperativas incluíam:

  • The Staffing Co-op, uma plataforma de fornecimento de mão de obra administrada por trabalhadores;
  • Driver’s Seat Data Co-op, uma plataforma que agrega dados e é controlada por motoristas;
  • Savyy Coop, a primeira plataforma de serviços de saúde dos Estados Unidos a ser controlada pelos próprios pacientes;
  • Expert Collective, uma plataforma de consultoria que conecta as necessidades das empresas com especialistas do mundo acadêmico;
  • Arizmendi Roots & Return, uma cooperativa de construção de moradias a preços acessíveis controlada por trabalhadores.

As participantes completaram o módulo de aceleração em maio de 2019 e viajaram por diferentes áreas do país para apresentar seus projetos e participar de eventos, incluindo a SEED Conference.

Em 2020, o programa de aceleração teve mais de 70 inscritos. E foram selecionados seis participante:

  • Ampled, uma plataforma que permite que músicos sejam apoiados com pagamentos diretos de seus fãs e é controlada por artistas, público e trabalhadores;
  • Forty Acre Co-op, que produz sementes de cânhamo de qualidade superior, faz parceria com agricultores para seu cultivo e promove o processamento de produtos derivados de cânhamo;
  • Money Positive, uma cooperativa de serviços de planejamento financeiro de custo acessível;
  • Tootie’s Tempeh, uma cooperativa dedicada a fornecer tempeh orgânico, à base de plantas e rico em proteínas;
  • Turning Basin Labs, uma agência cooperativa de gestão de pessoas com foco em diversidade;
  • UPROOT Homes, uma fintech que permite que diferentes proprietários de imóveis de curto prazo se juntem para pagar uma única hipoteca.

Já os participantes do ciclo de aceleração de 2021 foram os seguintes:

  • Bloc by Block News, uma cooperativa de mídia e organização de engajamento cívico com um aplicativo móvel que ajuda os moradores de Maryland a explorar o que mais importa em suas comunidades.
  • A Brave é uma cooperativa que previne a morte por overdose acidental desenvolvendo e implantando dispositivos para detectar overdose e alertar as pessoas próximas.
  • Carefully é uma plataforma de cuidados colaborativos que oferece uma maneira fácil e gratuita para pais ocupados compartilharem cuidados, organizarem rede de apoio e fornecerem ajuda mútua.
  • A GO Box oferece aos clientes e empresas embalagens reutilizáveis ​​sem desperdício como serviço (as a service), eliminando produtos de uso único para alimentos e bebidas para viagem.
  • Kinfolk é o primeiro mercado de propriedade 100% de consumidores negros que oferece um novo modelo econômico para converter bairros negros em motores econômicos essenciais para a geração de riqueza.
  • A The Drivers Cooperative é uma plataforma para motoristas de aplicativo de propriedade dos próprios motoristas na cidade de Nova York. Assim, os motoristas ganham mais e os clientes pagam menos.
  • A Zebras Unite é um movimento cooperativo internacional que cria a cultura, o capital e a comunidade para a nova economia.

2022

Neste ano, foram selecionados nove participantes, o maior número em uma única edição desde o começo do programa.

Ao anunciá-los, a Start.Coop destacou o fato de que 66% dos fundadores das cooperativas selecionadas eram pessoas não-brancas e 89% deles eram mulheres ou pessoas não-binárias.

O grupo é constituído por:

  • Guilded, uma plataforma de freelancers que oferece garantias trabalhistas, renda regular e benefícios;
  • Mother’s Milk Cooperative, o primeiro banco de leite do mundo controlado por mães em amamentação, oferecendo leite para bebês prematuros;
  • Navajo Power Home, um fornecedor de serviços de energia solar para casas sem ligação com a rede de energia em reservas Navajo e Hopi;
  • Novlr, uma plataforma para ajudar escritores a aumentar seu número de leitores e ganhar dinheiro com seu trabalho;
  • Radish Cooperative, uma plataforma online de entrega de comida controlada por trabalhadores, consumidores, entregadores e restaurantes;
  • SMAT, uma plataforma de tecnologia que fornece a ativistas, jornalistas, pesquisadores e público a possibilidade de identificar discurso de ódio e desinformação na internet;
  • StyleCrush, uma plataforma de revenda de roupas que filtra o enorme volume de roupas usadas oferecidas no mercado e identifica minicoleções personalizadas de moda;
  • The Guild, uma cooperativa formada por pessoas negras e latinas que desenvolve modelos de imóveis para apoiar comunidades marginalizadas;
  • The Nearness, um lar espiritual online para pessoas que buscam aprendizado, crescimento e conexão moral e espiritual e estão cansadas de modelos tradicionais de religião. 

Confira a entrevista completa cedida por Greg Brodsky ao advisor da Coonecta, Travis Higgins:

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Gustavo Mendes
Gustavo Mendes
Cofundador da Coonecta, especialista em curadoria de conteúdo para educação corporativa e marketing de conteúdo, palestrante e mentor em: inovação, cooperativismo de plataforma, cooptechs e empreendedorismo cooperativo