Do vício em bets às fraudes no pix: BC aponta riscos de governança nas cooperativas

O Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC) acaba de cruzar a marca histórica de R$ 1 trilhão em ativos totais. Além de ser comemorado, o marco também liga um alerta de governança para as cooperativas. 

No seminário SNCC em Transformação, representantes do Banco Central apontaram que o crescimento do cooperativismo de crédito implica mais atenção à governança, sem espaço para amadorismo, estagnação técnica de gestores ou conselhos lenientes.

Alertas para o cooperativismo 

A advertência mais contundente partiu de Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do BC. Ele declarou tolerância zero para o que classificou como “cooperativas de dono”, isto é, instituições que utilizam a fachada do modelo cooperativo, mas que operam sob o controle e os interesses de grupos restritos.

“É inadmissível instituições que operem como cooperativas de dono e cooperativas que sejam instrumento de bets ilegais. Seremos parceiros, sim, mas também adotaremos as medidas necessárias”, disse Aquino. 

Ao cobrar a renovação urgente dos quadros de administração, o diretor afirmou que o regulador liquidará e retirará do sistema as entidades que desvirtuarem o seu propósito original. Aquino, inclusive, fez referência à liquidação da Creditag, que aconteceu no mesmo dia em que a abertura do seminário, sem mencioná-la nominalmente.

Aílton de Aquino. Foto: Banco Central / Raphael Ribeiro

Crescendo com responsabilidade

Em sua participação via vídeo na abertura do seminário, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, argumentou que “a recente evolução legal e regulatória aplicada ao cooperativismo, ao mesmo tempo em que conferiu maior liberdade operacional e ampliou o leque de produtos e serviços oferecidos pelas cooperativas, também atribuiu maiores responsabilidades às instituições, materializadas no aumento das exigências de capital, de controles e de gestão”.

Segundo o presidente, esse seminário oferece uma excelente oportunidade para que todos os envolvidos com o cooperativismo possam discutir como esse modelo pode continuar progredindo em seus diversos aspectos, como governança, regulação prudencial, digitalização e segurança cibernética.

Coragem de governança

Outro especialista a trazer insights importantes para o setor foi Adalberto Felinto. O chefe do Departamento de Supervisão de Cooperativas e de Instituições Não Bancárias (Desuc) do BC alertou que, em um cenário de riscos crescentes, as instituições precisam tirar suas operações do “piloto automático”.

Para o BC, a maturidade de uma cooperativa é medida por sua capacidade de antecipar crises e definir, de forma prévia, protocolos como incorporações e intervenções, antes que as fragilidades explodam.

O setor não está alheio a essas preocupações. Alexandre Euzébio Silva, diretor de Riscos, Controles e Conformidade da Unicred do Brasil, admitiu que o aporte milionário em ferramentas e em equipes de controle perde completamente a eficácia se a alta administração não estiver disposta a agir.

“Não adianta termos ferramentas, pessoas capacitadas, boa técnica e bons processos se a governança não está preparada para tomar decisões difíceis”, declarou Silva. Ele complementa: “Não adianta gerarmos informações, dados e cruzamentos se as pessoas responsáveis não estão prontas para tomarem decisões sem conflitos de interesse”.

A infiltração do crime e a rota das bets

O alerta de Aquino sobre cooperativas que operam como instrumento de bets ilegais foi corroborado e detalhado por Valdemir Forte de Sousa, chefe-adjunto do Departamento de Supervisão de Conduta (Decon). Sousa explicou que, enquanto os sistemas cooperativos possuem políticas centralizadas de prevenção à lavagem de dinheiro, a aplicação dessas regras nas singulares enfrenta dificuldades.

“O que nós identificamos? Cooperativas com ocorrência relevante de contas ligadas a bets não autorizadas, ligadas a contas-bolsão de comportamento suspeito”, declarou. “A gente tem notado que ainda há um caminho de desenvolvimento, porque a aplicação na ponta se mostrou falha”, seguiu o diretor. 

Na prática, o crime organizado mapeou o SNCC e encontrou as cooperativas singulares como entidades vulneráveis que podem ser usadas para lavar dinheiro, dispersar fraudes do Pix e abastecer o mercado de apostas não autorizadas. 

Fragilidade via acesso

Para que o crime organizado opere por dentro das cooperativas, ele precisa de acesso. Esse tópico foi abordado por Maicon Jardel Gassen, coordenador da Câmara Temática de Prevenção a Fraudes e Segurança Cibernética do Ceco (Conselho Consultivo Nacional do Ramo Crédito). Ele refletiu sobre o endividamento dos próprios funcionários das cooperativas.

Gassen apontou que o vício em jogos de azar na internet tornou-se um fator determinante para que o crime coopte colaboradores do setor. Uma vez aliciados, esses funcionários com dívidas de jogo facilitam invasões ou fornecem credenciais para a aprovação de transações ilícitas.

Segundo o especialista, os criminosos estão procurando essa falha de comportamento, e não só para as falhas tecnológicas. “E aí eu coloco uma pimenta: a gente precisa dar uma atenção agora para os vícios em jogos de azar, principalmente as bets, que é um fator determinante para essa cooptação dos nossos colaboradores”, explicou Gassen. 

Aristides Andrade Cavalcante Neto, chefe do Degef/BC, endossou o alerta. Ele explicou que o crime organizado tem abordado ativamente funcionários e terceirizados para instalar dispositivos de espionagem nas redes internas das instituições.

Cuidado com Pix e criptomoedas

Outro ponto crítico levantado pelo BC foi a fragilidade na gestão do Pix. Valdemir Forte de Sousa, do Decon, revelou que algumas cooperativas assumiram a responsabilidade de bancar “participantes indiretos” no sistema Pix sem possuírem controles adequados de prevenção a fraudes. O resultado: essas cooperativas tornaram-se rotas de trânsito para a dispersão de dinheiro roubado em golpes.

A falha era tão grave que os recursos fraudulentos passavam pelas cooperativas e eram rapidamente convertidos em criptoativos, apagando o rastro do dinheiro e dificultando a ação policial. Isso forçou o Banco Central a adotar medidas rigorosas para barrar cooperativas com controles débeis de apadrinharem esses participantes indiretos.

“Muitos pensam, quando falamos de hacker, que é aquele jovem de faculdade que quer aparecer. Não, estamos falando de crime organizado mesmo”, alertou Cavalcante Neto. O chefe do Degef/BC explica que os criminosos sabem como funciona o PIX, o RTGS (Sistema de Transferência de Reservas) e estratégias de dispersão rápida do dinheiro para o mundo cripto.

Maior pressão sobre as avaliações técnicas

Diante da gravidade, o Banco Central anunciou que, além de fiscalizar, vai também terceirizar parte da pressão. Desde agosto do ano passado, o BC já solicitou que as empresas de auditoria cooperativa incluam em seu escopo para este ano a avaliação técnica rigorosa dos mecanismos de prevenção a golpes e fraudes das instituições. 

Se a cooperativa não monitora atipicidades financeiras, o auditor terá que apontar a falha formalmente. 

Risco humano operacional

A cibersegurança não é só mais um problema de tecnologia, mas sim um fator capaz de quebrar uma cooperativa, afirmou o Banco Central. Ailton de Aquino confirmou que, pela primeira vez na história do Sistema Financeiro Nacional, o BC assistiu à quebra de instituições financeiras por risco operacional decorrente de incidentes cibernéticos – e não por inadimplência ou falta de liquidez. 

A fim de ilustrar como o crime organizado derruba uma instituição financeira, o Degef apresentou um estudo sobre a falta de cuidado com a segurança cibernética no SNCC. Em uma pesquisa recente feita com o setor, o BC descobriu que:

  • Quase 60% das cooperativas admitiram não realizar a revisão periódica de acessos aos seus sistemas. Em um dos casos reais investigados, criminosos conseguiram uma credencial em fevereiro, ampliaram os poderes desse usuário internamente e passaram meses estudando a rede até deflagrar o ataque financeiro em agosto.
  • Cerca de 83% das instituições afirmaram não terem controles internos contra a instalação de dispositivos não autorizados em suas redes. 
  • Por volta de 90% das cooperativas não fazem avaliação periódica dos riscos relacionados aos seus prestadores de serviços. Aristides comparou a negligência na entrega de credenciais e certificados digitais a terceiros ao ato de “entregar a chave do seu cofre físico para a empresa de manutenção predial”.

Nesse contexto, o crime organizado consegue invadir as cooperativas ao aliciarem funcionários e prestadores que instalam dispositivos espiões que capturam senhas. 

Desse modo, a vulnerabilidade financeira das pessoas, potencializada pela epidemia de vício nas bets, também representa um risco institucional para o setor. 

Sobre o seminário SNCC em Transformação

O seminário “SNCC em Transformação”, promovido de forma conjunta pelo Sistema OCB e pelo Banco Central, foi realizado entre quinta (16) e sexta-feira (17) no auditório Dênio Nogueira, na sede do BC. O encontro reuniu as principais lideranças do mercado e do órgão regulador para alinhar os próximos passos do segmento cooperativista. 

A abertura oficial contou com a participação da presidente executiva do Sistema OCB, Tania Zanella, que defendeu a preservação da essência do modelo diante de seu crescimento. Também esteve presente o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para recordar como a evolução regulatória traz mais liberdade operacional, mas exige contrapartidas em controle e gestão.

Além dos alertas sobre governança e infiltração criminosa, os dois dias de programação técnica se debruçaram sobre a reestruturação operacional do sistema. 

Os painéis discutiram o impacto das novas regras de capital mínimo exigidas pela Resolução Conjunta nº 14, a necessidade de padronização por meio da supervisão e autorização auxiliar e a implementação de ferramentas de blindagem tecnológica, como o recém-lançado BC Protege+.

  • Quer saber qual a visão de representantes do Banco Central sobre o cooperativismo de crédito? Participe do Cooptech Crédito 2026! A programação contará com a presença de representantes da autarquia, como Aristides Cavalcanti, chefe do Degef; e Janaína Pimenta Attie, consultora de regulação do Bacen! 

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