Cooperativismo de Plataforma: a democratização dos serviços digitais

Já pensou em uma plataforma como a Uber na qual os motoristas são os próprios responsáveis pela empresa? Ou quem sabe um Airbnb no qual os donos da plataforma sejam os próprios anfitriões?

Esse modelo de negócio existe: estamos falando do chamado Cooperativismo de Plataforma, termo cunhado em 2014 pelo professor e ativista Trebor Scholz, da The New School, nos Estados Unidos.

Cooperativismo de Plataforma é um modelo mais democrático e aberto para os serviços digitais, baseado na copropriedade e na gestão compartilhada.

Contexto das Cooperativas de Plataforma

Crise econômica, agravo do desemprego e busca por novas opções de trabalho formaram o cenário ideal para o sucesso das plataformas digitais tradicionais no Brasil, nos últimos tempos.

Segundo o IBGE, 7 em cada 10 novos empregos gerados são informais. Muitos acreditam que, ao trabalhar nestas plataformas, eles se tornam empreendedores e autônomos, mas esquecem que há um dono por trás das empresas que lucrará muito mais em cima do serviço prestado.

Além do lucro, há algo mais requisitado pelas grandes empresas digitais nos dias de hoje. Uma frase publicada na The Economist que ganhou destaque pelo mundo resume bem o assunto:

“O recurso mais valioso do mundo não é mais petróleo, mas sim os dados.”

Outras desvantagens das plataformas tradicionais, segundo especialistas como o consultor americano Travis Higgins, são as demissões arbitrárias, vigilância excessiva sem direito de se desconectar, inseguridade de renda, entre outras.

Então, o poder de autonomia ao trabalhar nesses setores não passa de uma ilusão criada por grandes empresários e é isso que o Cooperativismo de Plataforma quer fazer de diferente.

A ideia é acompanhar a evolução do digital, mas de forma democrática, solidária, com base em copropriedade e na gestão compartilhada.

Como resultado, as cooperativas esperam criar oportunidades para dar voz ao usuário (transparência, influência e importância), mais participação e maior renda para os produtores.

O Brasil tem uma forte cultura de cooperativismo, especialmente nos setores financeiro e agropecuário, mas ainda existe o desafio de levar essa cultura cooperativista para o universo da produção imaterial e tecnológica.

FairBnB: uma Cooperativa de Hospedagem

No Brasil, o modelo de Cooperativismo de Plataforma ainda não tem força, mas em outros países já há cases de sucesso, como o FairBnB, que é uma cooperativa de hospedagem.

A cooperativa de plataforma pertence não aos investidores, mas àqueles que a usam e são afetados pelo seu uso: anfitriões, hóspedes, convidados e empresários locais.

O FairBnB fornece um espaço onde os membros da comunidade podem se reunir e decidir juntos como a plataforma será executada na sua vizinhança.

E ainda trabalham com o governo local para promover regulamentações que incentivem o turismo sustentável.

Para reconstruir a comunidade, os lucros – ou melhor, as sobras – são reinvestidos em projetos sociais que combatam os efeitos negativos do turismo.

Os moradores votam para apoiar os projetos que querem ver em seus bairros, como cooperativas de consumo, locais de lazer, parques infantis, projetos verdes e cafés comunitários.

Criado e governado por cidadãos, o FairBnB mantém as sobras nas comunidades e garante que as decisões sejam tomadas para o bem da região, e não para sua exploração.

A cooperativa de plataforma FairBnB está nos Estados Unidos, México, Alemanha, Espanha, Itália e Grécia.

Cooperativismo 2.0

O Cooperativismo de Plataforma tem ainda grandes desafios pela frente. É preciso mesclar os universos de tecnologia e cooperativismo.

A ideia também pede uma maior transparência na estrutura de governança e vai na contramão das práticas financeiras em Startups.

Gideon Rosenblatt escreveu para a revista norte-americana Yes Magazine sobre a urgência e os desafios para o surgimento de novas cooperativas nos setores de tecnologia – como um “Cooperativismo 2.0”. No texto, ele afirma:

“Estamos em uma corrida que coloca a explosão da inteligência artificial e da automação contra nossa capacidade de expandir rapidamente a propriedade dos motores que impulsionam essa revolução tecnológica. Desenvolver as cooperativas de plataforma de sua forma incipiente em um novo e próspero setor é um passo crítico em direção a um futuro econômico, justo e promissor”. Para ler texto na íntegra em inglês, clique aqui.

Para passar por esses desafios e incentivar as cooperativas a mergulhar neste universo, há alguns projetos já em prática, como o Consórcio de Plataformas Cooperativas, liderado por Trebor Scholz.

As grandes empresas já estão atentas à novidade. Recentemente, a Fundação Google, por exemplo, financiou o Consórcio de Scholz com 1 milhão de dólares que será utilizado para construir colaborativamente o Platform Co-op Development Kit, uma espécie de plataforma com ferramentas para ajudar pessoas interessadas em criar plataformas digitais cooperativas.

Além disso, o Kit dará suporte a cooperativas já existentes em de diversos países.

Como diz Trebor Scholz em seu livro Cooperativismo de Plataforma, “não podemos perder mais tempo”. Há uma promessa de proteções sociais, acesso e privacidade que está distante de acontecer, por isso, é preciso nos esforçarmos para esta conquista.

“Por meio do nosso esforço coletivo podemos construir o poder político para um movimento social que irá dar existência a essas ideias”, afirma o ativista.