Cooperativas indígenas unem geração de renda, preservação ambiental e propósito

Em 7 de fevereiro é comemorado o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. A data foi instituída em 2008, em recordação da liderança guarani Sepé Tiaraju que, em 1756, morreu em um levante indígena contra colonizadores espanhóis e portugueses. O dia é uma lembrança de que há muito tempo esse grupo luta pela defesa de suas terras, e a história se mantém até hoje – inclusive por meio de cooperativas indígenas. 

Dentre as diversas formas pelas quais os povos indígenas se unem para buscar seus direitos está o modelo cooperativista. Baseado na união de pessoas que compartilham propósitos e interesses, uma cooperativa é uma organização que visa o desenvolvimento econômico de um grupo a partir de alguns princípios e valores.

Tendo sustentabilidade e responsabilidade social como alguns de seus alicerces, o cooperativismo se encontra com muita sinergia na produção de povos indígenas. E, devido à sua organização, facilita os negócios de povos originários. 

Saiba como o modelo cooperativista pode ser benéfico para esse grupo, fortalecendo comunidades e gerando oportunidades para renda. Boa leitura!

Cooperativas indígenas na luta pela preservação

As terras indígenas são as áreas mais preservadas do Brasil, segundo estudo da rede MapBiomas. Povos originários buscam um estilo de vida e de produção que trabalhe em equilíbrio com o meio ambiente, e os números reforçam isso: de 1990 até 2020, as terras indígenas haviam perdido apenas 1% de sua área de vegetação nativa, 19% a menos que as áreas privadas cujo desmatamento chegou a 20,6%.

Quem também trabalha visando manter uma boa relação com a natureza é o cooperativismo. Tendo as práticas ESG como um dos seus pilares, as cooperativas fomentam a sustentabilidade nas comunidades, promovendo desenvolvimento econômico e social com impacto local. 

Dessa maneira, cooperativismo e povos originários têm em comum um trabalho que preza pela responsabilidade socioambiental na produção. Esse setor aparece para esse grupo como uma maneira prática de alinhar seus princípios com uma governança que faça sentido e que promova competitividade no mercado.

Com o apoio do cooperativismo, a preservação das terras pelos povos indígenas pode se tornar um diferencial no comércio, reforçando a importância de investir no desenvolvimento econômico sem perder o cuidado com o meio ambiente.

Cooperativismo ajuda na valorização da economia local

Uma das principais vantagens do cooperativismo para os povos indígenas é a robustez que os negócios ganham quando são organizados dentro desse modelo. Com uma governança sólida e respeitando os princípios e legislações cooperativistas, um empreendimento de populações originárias pode crescer e se consolidar na economia com maior facilidade.

Quando são fortalecidas pelo cooperativismo, comunidades indígenas conseguem produzir e comercializar com mais solidez, afinal ele promove a união de diversos produtores que acabam se tornando sócios daquela cooperativa. 

Ao trabalharem juntos, produtores e comerciantes indígenas têm maior facilidade para adentrar nos mercados e ganhar renda com seus meios de produção, algo que seria difícil atuando de maneira individual.

A atuação conjunta permite aos empreendedores indígenas terem acesso a recursos maiores para investimento em infraestrutura, gastos operacionais menores graças à divisão de custos e alto poder de negociar e comercializar seus produtos por conta da grande escala.

Exemplos de cooperativas indígenas que promovem desenvolvimento econômico e social

Conheça dois negócios de povos indígenas que, por meio do modelo cooperativo, cresceram e se consolidaram na economia brasileira:

Coopaiter

A Cooperativa de Produção de Povo Indígena Paiter Suruí, que atua em Rondônia, foi fundada em 2017 e reúne mais de 200 produtores associados. Baseada no trabalho de extrativismo sustentável, a cooperativa produz e comercializa castanha, café, óleos vegetais e outros produtos.

Reprodução: SomosCoop

Com objetivo de fortalecer a cultura local e preservar a floresta com produtos da sociobiodiversidade, a Coopaiter cultiva as tradições e a natureza da região ao mesmo tempo em que adentra no mercado e gera renda para os cooperados. Sempre representando os valores e a diversidade do povo Paiter Suruí, a cadeia produtiva da cooperativa foca na qualidade e origem dos produtos, acima de tudo.

“O maior benefício para os nossos cooperados é a geração de renda, o que traz maior qualidade de vida para eles. Hoje, os associados não precisam sair da terra para ter seu dinheiro e sustentar sua família. Antigamente, os produtos eram vendidos a preço muito baixo, hoje existe um valor de mercado”, afirmou a gerente de produção da Coopaiter, Elisângela Bell Armelina Suruí, em entrevista à SomosCoop.

Coop’Agi

A Cooperativa Agropecuária Indígena de Pacaraima atua como uma ponte entre os produtores indígenas das etnias Macuxi, Wapichana e Taurepang e o mercado, ajudando na produção e comercialização de mais de 32 comunidades da região norte.

Reprodução: SomosCoop

Entre os cultivos das Terras Indígenas Raposa Serra do Sol e São Marcos, destacam-se a melancia, a banana, a mandioca, a batata, a abóbora e as hortaliças. Grande parte dos alimentos são vendidos por iniciativas governamentais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que já resultaram em uma renda de R$ 2 milhões para os produtores.

Dessa maneira, a Coop’Agi impulsiona tanto a segurança alimentar das comunidades ao seu entorno, quanto a prosperidade e autonomia dos povos indígenas, utilizando apenas floresta em áreas de manejo e técnicas sustentáveis para não danificar o solo.

Conclusão: cooperativas indígenas fazem bons negócios com impacto positivo e preservação cultural

Ao unir a sabedoria ancestral de manejo da terra com estruturas modernas de governança e gestão, as cooperativas indígenas provam que é plenamente possível alinhar o desenvolvimento econômico à conservação ambiental.

O sucesso de iniciativas como a Coopaiter e a Coop’Agi reforça que a tradição e a preservação cultural podem ser ferramentas de desenvolvimento econômico sustentável e da inovação – e que o cooperativismo é um aliado na luta dos povos indígenas.

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