Seis em cada dez cooperativas brasileiras já usam alguma solução de inteligência artificial, mas só 9,4% têm política institucional consolidada sobre o tema. O uso se adiantou às regras internas.
O dado é um dos achados da 3ª Pesquisa de Inovação no Cooperativismo Brasileiro, lançada pelo Sistema OCB. O levantamento ouviu 1.340 cooperativas de todo o país, a maior amostra entre as três edições (2021, 2024 e 2026), em um questionário de 38 perguntas sobre como elas praticam, medem e planejam a inovação. Nesta edição, a análise se amplia para inteligência artificial, inovação aberta, pesquisa científica e acesso a fomento.
Entre as respondentes, 90,8% são cooperativas singulares, 6,6% são centrais e federações e 2,6% são confederações. Crédito (26,4%), agropecuário (24,6%) e saúde (17,7%) são os ramos mais representados. O Sudeste concentra 27,6% das sedes, e 38,1% das cooperativas faturam entre R$ 300 mil e R$ 15 milhões por ano.
Inteligência artificial no cooperativismo
As soluções de IA mais comuns são chatbots e assistentes virtuais (35%), IA generativa (28%), análise de dados e previsões (21%) e automação inteligente de processos (17%). Quanto à governança, 33,5% das cooperativas ainda não discutiram o tema internamente.
Abertura ampla, formalização limitada
Dizem-se abertas à inovação 77% das cooperativas, mas a formalização é menor. Em 36%, a inovação é objetivo do planejamento estratégico, e 13,6% têm metas e acompanhamento formalizados. Já 37,2% não têm estrutura dedicada, 48% destinam menos de 1% do orçamento ao tema ou nada, e 56,9% implementaram de um a cinco projetos.
A alta liderança (diretoria ou presidência) decide sozinha as estratégias de inovação em 45,1% das cooperativas. Em 20,4%, decide em conjunto com uma área ou comitê. Em 17,1%, ninguém é formalmente responsável.
O que acompanha mais projetos
Entre as cooperativas com área dedicada e equipe própria, 69,6% implementaram seis ou mais projetos em dois anos. O índice é de 46,0% quando a alta liderança decide, patrocina e é referência na cultura de inovação, e de 40,7% entre as que destinam 3% ou mais do orçamento.
A cultura também pesa. Entre as cooperativas que se descrevem como muito abertas e inovadoras, 76,7% destinam 1% ou mais do orçamento à inovação, contra 29,8% entre as moderadamente conservadoras. Na execução, 47,8% das primeiras implementaram seis ou mais projetos, contra 8,2% das segundas.
Capacitação e práticas para inovar
Têm programa estruturado e contínuo de desenvolvimento de competências 25% das cooperativas. Outras 35% fizeram ações pontuais ou sem continuidade, e 19% discutiram o tema sem ação concreta.
As práticas de aprendizado mais citadas são vivências com cooperados ou clientes (38,9%) e visitas técnicas de benchmarking (32,1%). Ideathons aparecem em 18,5%, missões internacionais em 16,6% e rodadas com universidades em 14,5%. Nenhuma prática foi citada por 29,3%.
Onde se inova e com que resultado
Marketing e comunicação lideram as áreas que mais inovam (52%), seguidos de atendimento ao cooperado (50%) e tecnologia (50%). Mais de quatro em cada dez cooperativas citam a melhoria de processos e a redução de custos como principal impacto. Outras 26,2% não identificaram impactos concretos, e 9,1% chegaram a novos mercados.
Obstáculos e autoimagem
A falta de orçamento é o obstáculo mais citado (51,1%). Em seguida aparecem resistência à mudança (47,3%), falta de conhecimento (35,9%), complexidade tecnológica (31,6%) e falta de interesse dos cooperados (30,8%).
Na comparação com as concorrentes, 50,3% das cooperativas se veem atrás e 26,3% no mesmo nível. Em relação a outras cooperativas, 40,0% se veem atrás.
Pesquisa científica e parcerias
Dois terços das cooperativas (66,9%) não se relacionam com pesquisa científica. Entre as formas de vínculo, a mais comum é compartilhar dados para pesquisas (17,4%), seguida de participar ou patrocinar congressos (12,5%), parcerias formais com universidades (9,1%) e bolsas ou apoio financeiro (5,1%). Em pesquisa e desenvolvimento, 27% já têm estrutura ou estão montando uma, e 35,9% não têm nem planejam ter.
Nas parcerias de inovação, o Sistema OCB é o mais citado (39,7%), à frente de outras cooperativas (33,0%) e de fornecedores ou clientes (28,8%). Universidades e centros de P&D aparecem em 16,6%, startups em 15,2% e governo ou agências de fomento em 12,8%. Nenhum parceiro foi citado por 20,4%.
Fomento para inovação
Conhecem pouco ou não conhecem o ecossistema de fomento 79,8% das cooperativas: 44,3% não o conhecem e 35,4% estão começando a conhecer. Outras 10,3% conhecem as principais fontes, 6,6% já participaram de edital ou programa e 3,2% captam recursos com frequência.
A principal barreira é a falta de informação sobre oportunidades (56,3%). Vêm depois a falta de equipe interna para captação (42,5%), a dificuldade de elaborar projetos técnicos (37,8%), o excesso de burocracia (23,9%) e o desalinhamento entre editais e necessidades (15,7%).
Conclusão: os diagnósticos da 3ª Pesquisa de Inovação no Cooperativismo Brasileiro
Nos recortes por perfil, estrutura formal, liderança ativa, cultura aberta e investimento de 3% ou mais do orçamento aparecem associados a mais projetos executados. O maior índice é o das cooperativas com área dedicada e equipe própria (69,6%).
Os temas incorporados nesta edição mostram graus de avanço distintos: seis em cada dez cooperativas usam IA, 33% têm algum vínculo com pesquisa científica e 3,2% captam fomento com frequência.