Inovação aberta com startups torna cooperativismo mais dinâmico e moderno

As startups são protagonistas na nova economia, proporcionando inovação e dinamismo ao ambiente de negócios. Focadas em disrupção e propensas ao risco, as startups são ótimas parcerias para que as cooperativas pratiquem a inovação aberta.

Acontece, contudo, que o investimento em startups passa por um momento delicado em determinados contextos. Na América Latina, o mercado de venture capital viu uma queda de 50% nos investimentos em startups em setembro de 2023, de acordo com dados compilados pela Sling Hub

No Brasil, a cada dez startups, seis não captam uma segunda rodada. Dentro desse contexto, as startups precisam buscar outras alternativas. As cooperativas, portanto, se apresentam como aliadas para fortalecer as startups.

Como modelos de negócios bastante diferentes e, por isso mesmo, complementares, as cooperativas e as startups têm muito a ganhar com a inovação aberta. Neste artigo, então, conheceremos as mecânicas e exemplos de sucesso da conexão entre o cooperativismo brasileiro e o ecossistema de inovação fomentado pelas startups, com base em materiais publicados pelo InovaCoop e produzidos em parceria com a Coonecta. Aproveite a leitura!

Promovendo a inovação aberta com startups no cooperativismo

A relação entre cooperativas e startups tem um enorme potencial de simbiose, inovação e integração de tecnologias com impacto social. Para que essas parcerias tenham sucesso, o primeiro passo é identificar quais desafios enfrentados pela cooperativa podem ser solucionados com apoio de uma startup

Tudo começa por meio da identificação das dores internas da cooperativa, em busca de entender os problemas prioritários, uma vez que os recursos são finitos. Além disso, esse diagnóstico permite entender e alinhar expectativas sobre o desenvolvimento de uma solução. Afinal, alguns resultados podem demorar bastante. 

Há cinco perguntas que contribuem para a eficácia dessa etapa – são elas: 

  • Qual é o problema?
  • Quem está com o problema?
  • Onde o problema está acontecendo?
  • Quando o problema ocorre?
  • Por que o problema ocorre?

Por meio de respostas específicas e mensuráveis a tais questionamentos, a cooperativa deve avaliar se a inovação aberta apresenta as melhores perspectivas para o aprimoramento dos processos.

Inovação aberta ou desenvolvimento interno?

Essa é uma pergunta recorrente sempre que uma cooperativa se lança em busca de soluções. Ambas têm vantagens e desvantagens. Diante disso, a contratação de uma startup apresenta benefícios tais quais: 

  • Especialização: segmentadas e com grande expertise técnica, as startups possuem mais experiência e referências para o desenvolvimento da solução.
  • Perspectiva: um ponto de vista externo oxigena o processo de decisão, deixando dogmas corporativos de lado.
  • Alívio de carga: gerenciar a atuação de uma startup parceira pode ser bem mais simples e eficaz do que montar ou treinar uma equipe interna.

No entanto, os poréns também existem. Por mais que sejam especializadas tecnicamente, as startups levam um tempo para entender a cultura da cooperativa, o que tem o potencial de gerar ruídos. A falta de exclusividade na prestação de serviços também é capaz de gerar atritos na relação de inovação aberta. 

Tipos de inovação aberta com startups

As cooperativas podem fazer inovação aberta com startups em quatro modalidades. Cada situação, afinal, exige uma solução distinta e tem um tipo de conexão mais adequada. Eis, então, os quatro tipos de conexão com startups para realizar a inovação aberta:

  1. Fornecimento de solução: depois de identificar o problema, a cooperativa procura uma solução já pronta, com impacto operacional imediato. É o modelo indicado para lidar com questões urgentes. 
  2. Elaboração do projeto: consiste na elaboração de uma prova de conceito com metas específicas no curto prazo. Nesse caso, pode haver concorrência ou colaboração entre mais de uma startup. O projeto resulta na contratação do serviço ou na oferta a clientes e cooperados.
  3. Laboratório para aceleração: nesse cenário, a cooperativa apoia startups que estão se lançando no mercado, atuando como uma incubadora. Para tanto, disponibiliza recursos como capital, espaço, rede de contatos, ferramentas profissionais, recursos humanos e mentorias. 
  4. Corporate venture: ocorre quando a instituição realiza investimentos na startup, adquirindo participação ou controle da operação. Trata-se de um processo complexo, arriscado. Por isso, requer uma avaliação minuciosa para ter seguimento. 

Oito etapas da inovação aberta com startups

Após a identificação dos problemas e escolha da modalidade em que a conexão com as startups será realizada, é a hora de planejar e colocar a estratégia em ação. De início, a caminhada conjunta entre cooperativas e startups pode parecer complicada de executar, perante as diferenças culturais. Mas é justamente isso que vai enriquecer o processo. 

Assim sendo, confira o passo a passo elaborado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) para que as cooperativas possam executar uma inovação aberta com startups de forma eficaz e produtiva!

  1. Estratégia: começar pela definição das diretrizes da inovação aberta é primordial. Assim, a cooperativa deve identificar desafios e oportunidades visando o desenvolvimento de um plano de ação. Isso leva em conta a disponibilidade para investimento, metas, indicadores, requisitos técnicos, responsáveis e cuidados jurídicos, por exemplo.
  2. Plano de ação: em seguida, é recomendável identificar e priorizar os problemas internos. É nessa fase que acontece a avaliação de ir ou não atrás de uma startup. Caso a opção seja pela inovação aberta, define-se o processo e os critérios para a escolha das parcerias. 
  3. Prospecção e seleção: trata-se de um momento-chave no processo de inovação aberta. Uma dica para encontrar bons aliados é se ambientar com o ecossistema de inovação, como o RadarCoop, voltado ao cooperativismo. Hackathons também são úteis para selecionar startups
  4. Prova de conceito: escolhida a startup, é hora de definir o plano de trabalho e assinar um termo de cooperação técnica e financeira, para dar segurança jurídica tanto à cooperativa quanto à startup, que deve comprovar, por meio de uma prova de conceito, que sua solução resolve o problema da cooperativa. 
  5. Projeto piloto: o projeto-piloto, por sua vez, é um experimento estruturado, com escopo definido, incertezas levantadas e indicadores estabelecidos. É uma forma de testar a aplicabilidade do produto ou serviço da startup com recursos definidos e um cronograma montado. 
  6. Contratação: se os resultados das fases prévias forem satisfatórios, é hora de contratar a startup e consolidar a inovação aberta, mas sempre levando em conta os objetivos e a disponibilidade de investimento. Embora o processo seja flexível, a cooperativa não pode deixar de cobrar o cumprimento dos compromissos estabelecidos em contrato.
  7. Implementação e expansão: o sucesso do projeto está relacionado com a adaptação de ambos os atores. Dessa forma, a inovação aberta com startup deve ser acompanhada de um monitoramento de indicadores conforme o projeto é implementado. Cada etapa é avaliada para aprimorar processos e chegar ao melhor resultado. 
  8. Avaliação do processo: por fim, é importante avaliar todo o processo e assimilar as lições aprendidas. Ademais, uma análise criteriosa possibilita identificar pontos passíveis de evolução para a continuidade do projeto, assim como para iniciativas futuras de inovação aberta.

Exemplos de inovação aberta com startups no cooperativismo

Diversas cooperativas brasileiras já contam com iniciativas de inovação aberta com startups para melhorar seus processos e produtos. Em seus cases de inovação, o InovaCoop e a Coonecta narram algumas dessas histórias.

Laboratório Ailos desenvolve marketplace com inovação aberta

O Sistema Ailos reúne algumas das maiores cooperativas de crédito do Brasil. Em 2020, o sistema criou o seu Laboratório de Inovação, com os objetivos de acelerar, reconhecer, transmitir e praticar a inovação. Um dos pilares da iniciativa é a inovação aberta. 

Um dos frutos do Laboratório de Inovação foi a criação do marketplace Ailos Aproxima, nascido por meio da inovação aberta e lançado durante a pandemia para impulsionar os empreendedores locais.  O teste do marketplace foi realizado via inovação aberta com a startup Hallo e, em pouco tempo, já estava em operação. 

Durante o Cooptech Summit 2022, o coordenador de marketplace da Ailos Jeffereson Beck narrou a trajetória de desenvolvimento do Ailos Aproxima

Unimed VTPR consolida relacionamento com startups

Em 2015, a cooperativa de saúde gaúcha Unimed VTPR introduziu a inovação como um de seus pilares estratégicos, mas os programas de ideias somente com cooperados e colaboradores não estavam sendo suficientes. Diante disso, a coop passou a praticar inovação aberta com startups

Assim, surgiu, em 2019, o InnovatiON, um um programa de conexões com startups maduras com o objetivo de resolver desafios enfrentados pela cooperativa. Nas duas primeiras edições, cerca de 350 projetos de startups foram analisados e a inovação aberta foi efetivada em cinco delas. 

Devido ao sucesso do InnovatiON, a Unimed VTPR decidiu também se conectar com startups em fases iniciais de desenvolvimento. Daí nasceu o programa Vibee, um hub de inovação que atua para identificar oportunidades na área da saúde.

Unimed Lab: inovação aberta em todo o sistema

Em 2018, a Confederação do Sistema Unimed constatou uma fragmentação em suas iniciativas de inovação. Para sanar esse problema, a entidade criou uma área de inovação para lidar com o tema de forma estratégica, e a inovação aberta com startups ocupa um papel importante nessa jornada. 

Para tanto, a Unimed do Brasil fundou o Unimed Lab, a fim de inserir as cooperativas da confederação em um ecossistema de inovação cooperativo. Apesar de ter sido atrapalhado pela pandemia, o Unimed Lab realizou conexões com 19 startups.

Além disso, o Unimed Lab desenvolveu um hub digital que reúne startups com soluções que podem ser relevantes para as cooperativas singulares do sistema.  

Cocamar Labs integra cooperativa em ecossistema de inovação

Outro laboratório de inovação que integra uma cooperativa com as startups é o Cocamar Labs, voltado ao ramo agropecuário. Ele surgiu como uma célula da cooperativa focada na inovação disruptiva e transformação digital, já com o objetivo de promover a inovação aberta.

A Cocamar já colocou a inovação aberta com startups em prática em projetos como NeoField (sonda de monitoramento da propriedade rural), Agrian (agricultura digital a partir de imagens de satélite) e Flugo (gestão de filas na Transcocamar). 

O Cocamar Labs é uma das iniciativas de inovação presentes em nosso e-book sobre cases de inovação no cooperativismo agropecuário, confira aqui!

Conclusão: inovação aberta com startups fomenta o ecossistema cooperativista

A inovação aberta com startups é uma ótima oportunidade para que as cooperativas absorvam novas ideias, tecnologias e processos para solucionar suas dores. Uma vez que operam em metodologias e velocidades diferentes, as startups podem levar muito dinamismo para o meio cooperativista.

Em parceria com a Coonecta, o InovaCoop produziu um guia prático enumerando as etapas para que as cooperativas se relacionem com startups por meio da inovação aberta

Por fim, não podemos esquecer que o ecossistema de inovação cooperativista se fortalece com as pontes construídas por meio da inovação aberta e interação entre seus atores. Construir essas pontes é o papel do RadarCoop, uma iniciativa inédita da Coonecta em parceria com o Complexo.lab

Por meio de um mapeamento dos atores do ecossistema de inovação cooperativista e da realização de encontros, o RadarCoop estimula a inovação aberta no cooperativismo, assim como o surgimento de startups cooperativas. Saiba mais sobre o RadarCoop!

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Gustavo Bezerra
Gustavo Bezerra
Jornalista pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Foi integrante do programa Estagiar da TV Globo. É apaixonado por literatura. Atualmente, é redator da Coonecta.